- A quiropraxia pode ajudar no alívio da dor e na volta ao movimento em quem tem hérnia de disco, desde que haja avaliação antes.
- Nem todo ajuste serve para toda hérnia: com perda de força, dormência que avança ou outros sinais neurológicos importantes, a manipulação de alta velocidade pode não ser indicada.
- O estalo do ajuste não é osso voltando ao lugar; é a liberação de gás dentro da articulação, um fenômeno chamado cavitação.
- Dor ou rigidez passageira depois da sessão é comum; eventos graves são raros, e a região cervical pede cuidado redobrado.
- No Brasil, a quiropraxia é especialidade reconhecida pelo COFFITO para fisioterapeutas, e a diretriz NICE NG59 recomenda terapia manual apenas dentro de um pacote com exercício.
Quiropraxia é bom para hérnia de disco?
Pode ser, e muitas vezes é. A quiropraxia ajuda a reduzir a dor e a devolver movimento à coluna, o que facilita o resto do tratamento. Mas ela não "empurra a hérnia de volta" e não resolve tudo sozinha.
No consultório eu vejo muita gente chegar com uma expectativa errada: a de que um ajuste bem dado vai fazer o disco voltar para o lugar. Não é assim que funciona. A hérnia de disco é uma alteração do próprio disco, e o que o corpo faz com ela ao longo das semanas e dos meses depende de vários fatores, incluindo o quanto você se movimenta e como você carrega o peso no dia a dia.
O que a manipulação e as técnicas de mobilização fazem bem é outra coisa. Elas diminuem a proteção muscular exagerada, aliviam a rigidez das articulações vizinhas e, em muitos casos, reduzem a dor o suficiente para a pessoa conseguir fazer os exercícios que de fato sustentam a melhora. Por isso eu gosto de dizer que a quiropraxia abre a porta. Quem atravessa é o paciente, com movimento.
O que dizem os estudos
Uma revisão sistemática com metanálise publicada no BMJ em 2019 (Rubinstein e colaboradores) avaliou a manipulação vertebral na dor lombar crônica. O resultado mostrou efeito parecido com o de outras terapias recomendadas, como exercício, e eventos adversos graves foram raros. Ou seja: ajuda, mas não é mágica e não é superior a tudo. Esse estudo olhou dor lombar crônica de forma geral, não só hérnia, e isso precisa ser dito com honestidade.
A diretriz britânica NICE NG59, sobre dor lombar e ciática, vai na mesma linha. Ela só recomenda terapia manual (manipulação, mobilização, técnicas de tecidos moles) como parte de um pacote de tratamento que inclua exercício. Isolada, não.
Quem tem hérnia de disco pode ir no quiropraxista?
Pode, desde que passe por uma avaliação completa antes de qualquer ajuste. É essa avaliação que define se a manipulação é indicada, qual técnica usar e em que momento do tratamento ela entra.
Na primeira consulta eu não começo pela maca de ajuste. Começo conversando. Quero saber onde dói, para onde a dor vai, se piora sentado, se melhora andando, se tem formigamento e onde. Depois examino força, sensibilidade e reflexos das pernas (ou dos braços, se a hérnia for cervical). Só então decido o que fazer.
Quando a manipulação de alta velocidade pode não ser indicada
Nem toda hérnia aceita o ajuste rápido, aquele com estalo. Eu costumo evitar ou adiar esse tipo de técnica quando:
- a perna (ou o braço) está perdendo força de forma clara ou progressiva;
- a dormência está aumentando de área ou de intensidade;
- a dor irradiada está muito aguda, a ponto de qualquer movimento piorar o quadro;
- há osteoporose importante, uso prolongado de corticoide ou cirurgia recente na coluna;
- o exame levanta suspeita de algo que não é mecânico.
Isso não significa ficar sem tratamento. Existem técnicas manuais suaves, mobilizações lentas e exercícios direcionados que podem ser usados nessas fases. Quiropraxia não é só o estalo.
Sinais de alerta: procure atendimento médico com urgência
Se você tem hérnia ou dor ciática e aparece qualquer um destes sinais, não é hora de quiropraxia nem de fisioterapia. É hora de pronto-atendimento ou médico:
- perda de controle da urina ou das fezes;
- dormência na região da sela (entre as pernas, períneo, parte interna das coxas);
- perda de força progressiva, como o pé caído (o pé "bate" no chão ao andar);
- dor nas costas acompanhada de febre;
- perda de peso sem explicação ou histórico de câncer.
Quiropraxia abre a porta. Quem atravessa é o paciente, com movimento.
Dr. Pedro Rosário, fisioterapeuta especialista em coluna
Quiropraxia para hérnia de disco lombar, cervical e nervo ciático: muda alguma coisa?
Muda bastante. A hérnia lombar costuma permitir mais opções de técnica manual, enquanto a cervical pede cuidado redobrado com manipulações rápidas. No nervo ciático, o foco é reduzir a irritação do nervo, e não apenas "destravar" a coluna.
Hérnia de disco lombar
É a mais comum no consultório, especialmente entre L4-L5 e L5-S1. Aqui eu combino técnicas manuais com movimentos repetidos e testes de preferência direcional, como faço no método McKenzie. A pergunta que guia tudo é simples: qual movimento faz a dor da perna recuar em direção à coluna? Quando acho esse movimento, a técnica manual entra para ajudar, não para substituir. Se o seu laudo fala em L5-S1, vale ler também se a hérnia de disco L5-S1 é grave.
Hérnia de disco cervical
Quiropraxia é bom para hérnia de disco na cervical? Pode ser, mas aqui eu sou mais conservador. O pescoço tem estruturas delicadas, e a manipulação de alta velocidade nessa região tem os riscos mais sérios descritos na literatura, ainda que raros. Na prática, muitas vezes eu prefiro mobilizações lentas, técnicas de tecidos moles, tração suave e exercícios de controle do pescoço e da escápula. Dá para tratar bem sem estalar o pescoço de ninguém.
Nervo ciático
A ciática é um sintoma, não um diagnóstico. Ela pode vir de uma hérnia lombar, mas também de outras causas. Quando a origem é o disco, o objetivo é diminuir a pressão e a inflamação em volta da raiz nervosa. Técnicas manuais podem ajudar a aliviar, mas a melhora mais consistente costuma vir da combinação com exercício e ajuste das atividades do dia. Na página sobre tratamento de hérnia e ciática eu explico como organizo isso.
O estalo do ajuste é osso voltando para o lugar?
Não. O estalo é o som da liberação de gás dentro da cápsula da articulação quando ela é separada rapidamente. Esse fenômeno se chama cavitação, e não tem nada a ver com vértebra fora do lugar.
Esse é provavelmente o mito que mais atrapalha. Muita gente acredita que, se não estalou, não funcionou. Ou que a coluna estava "torta" e o estalo foi a prova de que ela voltou. Pesquisadores já filmaram esse processo em ressonância magnética em tempo real (Kawchuk e colaboradores, 2015, com articulações dos dedos) e mostraram a formação de uma cavidade de gás no líquido articular no momento do barulho.
O que isso significa para você:
- o estalo não mede a qualidade do tratamento;
- uma sessão sem estalo pode ser tão útil quanto uma com estalo;
- sair do consultório "todo estalado" não quer dizer que algo foi consertado.
O efeito da manipulação parece ter mais relação com o sistema nervoso (redução da dor e da tensão muscular de proteção) do que com recolocar estruturas. Por isso, quando alguém me pede para "estalar a coluna toda", eu explico com calma por que não faço isso. Ajuste sem critério é só barulho.
Quiropraxia faz mal? Quais são os riscos reais
Na maioria das vezes, não. O efeito colateral mais comum é dor ou rigidez passageira nas 24 a 48 horas seguintes, parecida com a dor depois de um treino. Eventos graves existem, mas são raros, e a cervical é a região que pede mais cuidado.
Eu prefiro falar dos riscos de forma clara, porque o medo costuma vir justamente do que ninguém explicou. A tabela abaixo resume o que eu explico para os pacientes:
| Tipo de reação | Frequência | O que fazer |
|---|---|---|
| Dor, sensibilidade ou rigidez leve após a sessão | Comum | Costuma passar em um ou dois dias; manter-se em movimento leve ajuda |
| Piora temporária da dor irradiada | Ocasional | Avisar o profissional; a técnica ou a intensidade precisa ser revista |
| Piora neurológica (perda de força, dormência que avança) | Rara | Procurar avaliação médica sem demora |
| Lesão vascular ligada à manipulação cervical | Muito rara | É o motivo para triagem cuidadosa e cautela com ajustes no pescoço |
A revisão do BMJ de 2019 já citada encontrou eventos adversos graves raros na manipulação lombar. Isso é tranquilizador, mas não é licença para manipular qualquer pessoa sem avaliar. O risco cai muito quando o profissional faz triagem, conhece as contraindicações e escolhe a técnica certa para aquele quadro.
Quando eu não faço manipulação
Fratura, infecção, tumor, instabilidade da coluna, osteoporose grave e déficit neurológico progressivo são situações em que a manipulação rápida fica fora. Nesses casos o caminho é outro, e às vezes o primeiro passo é encaminhar para o médico.
Quiropraxia é fisioterapeuta? Quem pode fazer e como escolher
No Brasil, a quiropraxia é reconhecida pelo COFFITO como especialidade do fisioterapeuta, desde a Resolução COFFITO 220/2001. Na prática, isso quer dizer que um fisioterapeuta com especialização em quiropraxia está habilitado a avaliar e tratar com essas técnicas.
Eu sou fisioterapeuta especializado em coluna e professor de quiropraxia, e isso pesa em como enxergo o tratamento. A formação em fisioterapia dá a base para avaliar o quadro como um todo, prescrever exercício e saber quando parar. A quiropraxia entra como uma das ferramentas, junto com o método McKenzie, a descompressão e o exercício orientado. No atendimento de quiropraxia no Instituto Perseverar eu trabalho dessa forma.
Como escolher um bom profissional
Algumas perguntas simples ajudam muito:
- Ele avalia antes de ajustar? Se a primeira coisa que acontece é deitar na maca e estalar, desconfie.
- Ele tem registro no conselho? Peça o número do CREFITO e confira.
- Ele explica o que vai fazer e por quê? Você tem direito de entender e de recusar uma técnica.
- Ele passa exercício para casa? Tratamento só com ajuste, sessão após sessão, sem você aprender nada, é um sinal ruim.
- Ele promete cura ou prazo? Ninguém sério promete. Cada coluna responde de um jeito.
Um bom profissional também sabe dizer "isso não é para mim, procure o médico". Esse encaminhamento, quando necessário, é sinal de responsabilidade.
Como a quiropraxia entra num tratamento completo da hérnia de disco
Ela entra como uma parte do plano, ao lado de exercício e educação sobre a dor. Sozinha, tende a dar alívio de curto prazo; combinada, ajuda a pessoa a voltar a se mover com confiança.
No método P.I.L.A.R., que eu uso no Instituto Perseverar, a técnica manual tem hora certa. Em fases de dor forte, ela ajuda a destravar e a reduzir o medo de se mexer. Conforme a dor cede, o peso do tratamento vai passando para o exercício, porque é ele que dá força e controle para a coluna aguentar a rotina. Muitos pacientes seguem depois no Pilates clínico, e eu explico essa transição no artigo sobre Pilates para hérnia de disco.
A educação também é tratamento. Entender que a maioria das hérnias melhora sem cirurgia, que o laudo da ressonância assusta mais do que deveria e que movimento não é inimigo muda muito a forma como a pessoa lida com a dor. Se essa é a sua dúvida, leia se a hérnia de disco tem cura sem cirurgia.
A decisão de usar ou não a quiropraxia, e qual técnica, é sempre individual. Depende do exame, da fase da dor e do que você precisa fazer no seu dia. Mais sobre a minha forma de trabalhar está em drpedrorosario.com.br.
Quer saber se a quiropraxia serve para o seu caso?
Agende uma avaliação no Instituto Perseverar, em Contagem, pelo WhatsApp. Eu examino a sua coluna antes de qualquer ajuste e explico com calma o que faz sentido para você.
Agendar consulta pelo WhatsAppConheça também: Quiropraxia em Contagem
Perguntas frequentes
Quantas sessões de quiropraxia são necessárias para hérnia de disco?
Não existe um número fixo. Depende da fase da dor, do tipo de hérnia e de como você responde nas primeiras sessões. O que eu faço é reavaliar sempre e reduzir a técnica manual conforme o exercício assume o papel principal.
Quiropraxia pode piorar a hérnia de disco?
Pode acontecer uma piora temporária da dor, principalmente se a técnica não for adequada ao caso. Piora neurológica é rara. Por isso a avaliação antes do ajuste e a escolha da técnica são tão importantes.
Quem tem hérnia de disco pode estalar a coluna sozinho em casa?
Eu não recomendo. Forçar torções para estalar não trata a hérnia e pode irritar ainda mais a região. Se você sente necessidade de estalar o tempo todo, isso é um sinal para procurar avaliação.
Qual a diferença entre quiropraxia e fisioterapia?
No Brasil, a quiropraxia é uma especialidade reconhecida pelo COFFITO dentro da fisioterapia. A fisioterapia é mais ampla e inclui exercício, educação e outras técnicas; a quiropraxia é um conjunto de técnicas manuais que pode fazer parte desse tratamento.
Grávida com hérnia de disco pode fazer quiropraxia?
Algumas técnicas manuais suaves podem ser usadas na gestação, mas com adaptações de posição e intensidade e com o obstetra ciente. A decisão depende de avaliação individual.
Leia também
- Hérnia de disco L5-S1 é grave? O que o laudo diz e o que ele não diz
- Método McKenzie: o que é, como funciona e para quem é indicado na dor de coluna
Fontes e estudos citados
- Rubinstein SM et al. Benefits and harms of spinal manipulative therapy for the treatment of chronic low back pain: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ, 2019.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management (NG59). NICE, 2016.
- Kawchuk GN et al. Real-time visualization of joint cavitation. PLoS One, 2015.
- Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO). Resolução nº 220, 2001.
Fisioterapeuta especializado em coluna vertebral, hérnia de disco e dores irradiadas (CREFITO-4 144.105F). Professor de quiropraxia, criador do método P.I.L.A.R. e fundador do Instituto Perseverar, em Contagem. Foi fisioterapeuta credenciado nas Olimpíadas Rio 2016, com menção honrosa do CREFITO-4, e já falou sobre coluna no SBT Saúde, na Band Minas e na TV Alterosa.

