- L5-S1 é o disco entre a última vértebra lombar e o sacro e, junto com L4-L5, concentra a grande maioria das hérnias lombares.
- Abaulamento, protrusão, extrusão e sequestro descrevem o formato do disco, não a gravidade do caso.
- Achados de hérnia e degeneração são frequentes em pessoas sem dor e aumentam com a idade, segundo revisão de Brinjikji e colaboradores (2015).
- A hérnia L5-S1 costuma afetar a raiz S1, com dor na parte de trás da perna até a planta e a lateral do pé e reflexo do tornozelo diminuído.
- Perda de controle da urina ou das fezes, dormência em sela e fraqueza progressiva pedem atendimento médico urgente.
O que é L5-S1 e por que a hérnia aparece tanto ali?
L5-S1 é o disco que fica entre a última vértebra lombar (L5) e o sacro (S1), a base da coluna. É a articulação que mais recebe carga quando você senta, levanta peso ou se inclina para a frente, e por isso, junto com L4-L5, concentra a grande maioria das hérnias lombares.
Pense na coluna como uma pilha. Quanto mais embaixo, mais peso o disco segura. L5-S1 ainda faz a transição entre uma parte que se mexe bastante (a lombar) e uma parte fixa (o sacro, encaixado na bacia). Essa combinação de carga e movimento explica por que o disco desse nível se desgasta e se desloca com mais frequência.
No consultório, quando um paciente chega com o laudo na mão, em boa parte das vezes a palavra destacada é justamente "L5-S1". E a primeira pergunta quase sempre é a mesma: "Doutor, isso é grave?". A resposta honesta é que o nível da hérnia, sozinho, não diz isso. L5-S1 é o lugar mais comum, não o mais perigoso.
Hérnia ou protrusão: qual a diferença?
Muita gente pergunta se protrusão discal é hérnia de disco. Pela nomenclatura usada pelas sociedades de coluna, sim: protrusão é um tipo de hérnia, a forma em que o material do disco sai pouco e a base continua larga. Extrusão e sequestro são formas em que o material sai mais. A palavra "hérnia" assusta, mas ela cobre desde achados pequenos até quadros que pedem atenção.
Como ler o laudo de ressonância da hérnia L5-S1?
O laudo descreve a forma do disco e a relação com as raízes nervosas, mas não mede a sua dor nem a gravidade do caso. Abaulamento, protrusão, extrusão e sequestro falam do formato do deslocamento; o que importa clinicamente é se isso está comprimindo uma raiz e se o corpo mostra sinais disso.
Eu sempre peço para o paciente ler o laudo junto comigo, linha por linha. Quando a gente traduz os termos, metade do medo vai embora.
| O que está escrito no laudo | O que significa na prática |
|---|---|
| Desidratação discal / disco degenerado | O disco perdeu água com o tempo. É muito comum a partir dos 30 anos e aparece em quem não sente nada. |
| Abaulamento discal | O disco "estufou" de forma difusa, por boa parte da sua borda. Geralmente não é considerado hérnia propriamente dita. |
| Protrusão discal | Hérnia em que o material sai pouco e mantém a base larga. É o tipo mais frequente nos laudos. |
| Extrusão discal | O material saiu mais, com a ponta maior que a base. Pode irritar a raiz com mais força, mas também tende a ser reabsorvido pelo corpo com mais frequência. |
| Sequestro / fragmento livre | Um pedaço do disco se soltou. Parece assustador no papel, mas é o tipo que mais regride espontaneamente nos estudos. |
| Contato / compressão da raiz S1 (ou L5) | A hérnia encosta ou aperta o nervo. Essa é a linha que mais importa, e ela precisa bater com os sintomas. |
| Estenose do canal / do forame | O espaço por onde passam os nervos está mais estreito. O grau (leve, moderado, acentuado) ajuda a interpretar o quadro. |
Um dado que eu gosto de mostrar: uma revisão sistemática publicada no American Journal of Neuroradiology (Brinjikji e colaboradores, 2015) juntou exames de mais de 3 mil pessoas sem dor nenhuma. Achados como degeneração, abaulamento e protrusão eram frequentes e aumentavam com a idade. Protrusão discal, por exemplo, aparecia em cerca de 29% das pessoas de 20 anos sem sintomas e em perto de 43% das de 80 anos. Ou seja: ter hérnia no exame não é o mesmo que ter um problema.
Outro ponto que surpreende: uma metanálise de Chiu e colaboradores (Clinical Rehabilitation, 2015) mostrou que as hérnias que saem mais, como extrusão e sequestro, são justamente as que mais regridem sozinhas com o tempo. O tamanho no laudo não é sentença.
L5-S1 é o lugar mais comum da hérnia, não o mais perigoso. Quem diz se é grave é o seu corpo no exame, não uma palavra no laudo.
Dr. Pedro Rosário, fisioterapeuta especialista em coluna
Quando a hérnia de disco lombar é grave de verdade?
A hérnia de disco lombar é grave quando há perda de força que piora, alteração de sensibilidade importante, reflexos abolidos, sinais de compressão da cauda equina ou dor que não cede de jeito nenhum com o passar das semanas. Quem define a gravidade é o exame clínico e a evolução, não a imagem sozinha.
Na avaliação, eu olho quatro coisas com calma:
- Sintomas: onde dói, se a dor desce para a perna, se piora sentado, tossindo ou espirrando, e se existe uma posição que alivia.
- Força: consigo andar na ponta do pé? E no calcanhar? Consigo levantar o dedão contra resistência? Fraqueza que aparece no teste diz muito mais do que milímetros no laudo.
- Sensibilidade: formigamento e dormência, e em que região exatamente. O mapa da dormência aponta qual raiz está sofrendo.
- Reflexos: o reflexo do tornozelo (aquiliano) está ligado à raiz S1. Quando ele diminui ou some, é um dado objetivo de compressão.
E tem um quinto item, que é o tempo. Uma dor forte que vai melhorando aos poucos é um cenário muito diferente de uma dor que, semana após semana, vem acompanhada de mais fraqueza. A diretriz NICE NG59, do Reino Unido, recomenda priorizar abordagens não cirúrgicas como primeira linha para a ciática e reservar a avaliação cirúrgica para quem não melhora ou tem déficit neurológico relevante.
Minha opinião, depois de muitos anos de consultório: a maioria das hérnias L5-S1 não precisa de cirurgia, e o laudo assusta mais do que deveria. Mas isso não autoriza ninguém a ignorar fraqueza progressiva. A decisão é sempre individual e depende de avaliação.
Quais são os sintomas da hérnia L5-S1 e onde dói?
A hérnia L5-S1 costuma comprimir a raiz S1, que dá dor na parte de trás da coxa e da panturrilha, podendo chegar à planta e à lateral do pé, com o reflexo do tornozelo diminuído. Quando a raiz atingida é a L5, a dor e o formigamento descem pela lateral da perna até o dorso do pé e o dedão.
Quem pergunta onde dói a hérnia de disco geralmente espera ouvir "nas costas". Mas a dor mais incômoda costuma ser a da perna. Muitos pacientes chegam dizendo que a lombar até incomoda pouco e que o problema é a "dor no nervo" que desce.
Raiz S1 (a mais comum na hérnia L5-S1)
- Dor ou choque que desce pela parte de trás da coxa e da panturrilha.
- Formigamento ou dormência na planta do pé e na borda lateral do pé, perto do dedinho.
- Dificuldade de ficar na ponta do pé de uma perna só.
- Reflexo do tornozelo diminuído ou ausente.
Raiz L5 (mais ligada a L4-L5, mas pode aparecer)
- Dor pela lateral da coxa e da perna.
- Formigamento no dorso do pé e no dedão.
- Fraqueza para levantar o dedão ou andar apoiado no calcanhar.
Essa distinção não é só curiosidade. Quando o sintoma bate com a raiz descrita no laudo, a imagem ganha peso. Quando não bate, eu desconfio e investigo outras causas antes de culpar a hérnia. Também é comum a dor mudar de lugar conforme o movimento, e esse padrão é parte do que eu avalio pelo método McKenzie.
Quais sinais de alerta pedem atendimento urgente?
Procure um pronto-atendimento ou um médico com urgência se aparecer perda de controle da urina ou das fezes, dormência na região da sela (entre as pernas, ânus e genitais), perda de força que piora rapidamente, como o pé caído, dor com febre, perda de peso sem explicação ou histórico de câncer. Esses sinais podem indicar síndrome da cauda equina ou outra causa séria.
A síndrome da cauda equina é rara, mas é uma emergência. Acontece quando um conjunto de raízes na parte baixa do canal é comprimido ao mesmo tempo. Não é situação para esperar consulta agendada nem para tentar resolver com exercício em casa.
- Retenção ou perda de controle da urina ou das fezes.
- Dormência em sela: sensação de "anestesia" na região que encostaria num selim de bicicleta.
- Perda de força progressiva: o pé "arrasta", a pessoa tropeça, não consegue mais ficar na ponta ou no calcanhar.
- Dor com febre, perda de peso inexplicada ou histórico de câncer.
Se nenhum desses sinais está presente, a notícia é boa: na imensa maioria dos casos o quadro pode ser conduzido com calma, com tratamento conservador e acompanhamento.
O que fazer depois do diagnóstico de hérnia L5-S1?
O primeiro passo é uma avaliação clínica que confira se o laudo bate com os sintomas e descarte sinais de alerta. Depois, o caminho mais recomendado pelas diretrizes é o tratamento conservador ativo: entender a dor, encontrar movimentos que aliviam, manter-se ativo e fortalecer com progressão.
No Instituto Perseverar, em Contagem, eu começo sempre pela avaliação. Testo força, sensibilidade e reflexos, vejo como a dor responde a movimentos repetidos e só então decido o plano. Uso o método McKenzie, técnicas manuais e de quiropraxia quando fazem sentido para o caso, descompressão e exercício. Tudo isso faz parte do método P.I.L.A.R., que organiza o tratamento por etapas.
O que costuma ajudar
- Não ficar de cama. Repouso prolongado tende a atrasar a melhora; caminhar dentro do tolerável costuma ajudar.
- Descobrir a posição de alívio. Para muita gente com hérnia L5-S1, ficar muito tempo sentado piora, e mudar de posição com frequência faz diferença.
- Exercício orientado e progressivo, que depois pode seguir no Pilates clínico para manter o ganho.
- Acompanhar a evolução: força, sensibilidade e o quanto a dor "recua" da perna para a lombar.
O que costuma atrapalhar
- Ler o laudo sozinho e entrar em pânico com termos como "extrusão" ou "sequestro".
- Trocar de tratamento a cada semana sem dar tempo para o corpo responder.
- Ignorar fraqueza que vem aumentando.
Se você quer entender as chances de melhorar sem operar, escrevi sobre isso em hérnia de disco tem cura sem cirurgia. E na página de tratamento de hérnia de disco e ciática eu explico como funciona a avaliação no consultório.
Quer entender o seu laudo com calma?
Agende uma avaliação no Instituto Perseverar, em Contagem, pelo WhatsApp. Eu examino você, leio o laudo junto e explico o que ele significa no seu caso.
Agendar consulta pelo WhatsAppConheça também: Tratamento de coluna e hérnia de disco
Perguntas frequentes
Hérnia de disco L5-S1 dá direito a afastamento ou aposentadoria?
Ter hérnia L5-S1 no laudo, por si só, não garante afastamento. O que pesa na perícia é a limitação funcional comprovada, como perda de força ou incapacidade para a função. Essa avaliação é feita pelo médico e pelo perito, caso a caso.
Hérnia L5-S1 pode causar dor no pé?
Sim. Quando a hérnia comprime a raiz S1, a dor ou o formigamento pode chegar à planta e à borda lateral do pé. Se a raiz atingida for a L5, os sintomas aparecem mais no dorso do pé e no dedão.
Posso fazer academia com hérnia de disco L5-S1?
Na maioria dos casos, sim, desde que com orientação e progressão. O exercício costuma fazer parte do tratamento. O ideal é ajustar carga e movimentos depois de uma avaliação, principalmente na fase de dor forte.
Hérnia de disco L5-S1 some sozinha?
Ela pode diminuir. Estudos mostram que parte das hérnias regride espontaneamente, e as que saem mais, como extrusão e sequestro, tendem a regredir com mais frequência. Mesmo quando a imagem não muda, os sintomas podem melhorar bastante.
Qual médico procurar para hérnia L5-S1?
Ortopedista especialista em coluna, neurocirurgião ou fisiatra fazem o diagnóstico médico. O fisioterapeuta especializado em coluna conduz o tratamento conservador. Na presença de sinais de alerta, o caminho é o pronto-atendimento.
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Fontes e estudos citados
- Brinjikji W et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. American Journal of Neuroradiology, 2015.
- Chiu CC et al. The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review. Clinical Rehabilitation, 2015.
- Fardon DF et al. Lumbar disc nomenclature: version 2.0. The Spine Journal, 2014.
- National Institute for Health and Care Excellence. Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management (NG59). NICE, 2016.
Fisioterapeuta especializado em coluna vertebral, hérnia de disco e dores irradiadas (CREFITO-4 144.105F). Professor de quiropraxia, criador do método P.I.L.A.R. e fundador do Instituto Perseverar, em Contagem. Foi fisioterapeuta credenciado nas Olimpíadas Rio 2016, com menção honrosa do CREFITO-4, e já falou sobre coluna no SBT Saúde, na Band Minas e na TV Alterosa.

