- O método McKenzie, ou MDT (Mechanical Diagnosis and Therapy), foi criado pelo fisioterapeuta neozelandês Robin McKenzie.
- Ele é um sistema de avaliação: movimentos repetidos mostram qual direção melhora ou piora a dor de cada paciente.
- Quando a dor que descia pela perna recua para a lombar durante os testes (centralização), é um bom sinal de resposta ao tratamento.
- O paciente aprende a fazer os exercícios em casa e ganha autonomia para lidar com novas crises.
- Sinais de alerta como perda de controle da urina, dormência na região da sela ou perda de força pedem atendimento médico urgente.
O que é o método McKenzie?
O método McKenzie é um sistema de avaliação e tratamento da coluna chamado Mechanical Diagnosis and Therapy (MDT), criado pelo fisioterapeuta neozelandês Robin McKenzie. Ele parte de uma ideia simples: observar como a dor do paciente muda com movimentos e posições repetidas, e usar essa resposta para decidir o tratamento.
A história mais contada é a de um paciente que, por acaso, ficou deitado de bruços numa maca com o encosto levantado, com a coluna em extensão. A dor que descia pela perna dele diminuiu e se concentrou na lombar. McKenzie passou anos estudando esse tipo de resposta e organizou o que via num método com regras claras.
Muita gente chega ao consultório achando que McKenzie é "aquele exercício de deitar de bruços e empurrar o tronco para cima". Esse exercício existe, mas é só uma das possibilidades. Para alguns pacientes ele ajuda. Para outros, piora. O que define qual movimento usar é a avaliação, e é por isso que eu digo que o método McKenzie é, antes de tudo, uma forma de pensar.
No atendimento de coluna no Instituto Perseverar, eu uso o método McKenzie como uma das ferramentas dentro do método P.I.L.A.R., junto com terapia manual, descompressão e exercício.
Por que o McKenzie é mais avaliação do que lista de exercícios?
Porque o exercício certo depende da resposta de cada coluna. O método McKenzie começa com uma avaliação estruturada em que o paciente faz movimentos repetidos, em direções diferentes, enquanto o fisioterapeuta registra o que acontece com a dor, com a amplitude e com a força.
Numa avaliação típica, eu converso bastante antes de pedir qualquer movimento. Quero saber onde a dor está, se desce para a perna, o que piora (ficar sentado, levantar da cadeira, tossir) e o que alivia (caminhar, deitar). Depois vêm os testes:
- Flexão repetida: inclinar o tronco para frente, em pé ou deitado.
- Extensão repetida: arquear a coluna para trás, deitado de bruços ou em pé.
- Movimentos laterais: deslocar o quadril para um lado, quando a dor é mais de um lado só.
Não é uma repetição ou duas. São séries de cerca de dez movimentos, observando se a dor muda de lugar, de intensidade, ou se fica igual. Essa resposta é a informação mais valiosa da consulta. Ela vale mais, muitas vezes, do que a imagem da ressonância, porque mostra como aquela coluna se comporta de verdade.
Por isso, copiar uma sequência de exercícios McKenzie da internet é arriscado. Você pode estar fazendo justamente o movimento que irrita o seu caso.
O exercício certo para a sua coluna não está num vídeo da internet. Ele aparece quando a gente testa o movimento e escuta a resposta da dor.
Dr. Pedro Rosário, fisioterapeuta especialista em coluna
O que é centralização da dor e preferência direcional?
Centralização é quando a dor que estava espalhada, descendo pela perna, recua em direção à coluna durante os movimentos testados. Preferência direcional é a direção de movimento (por exemplo, extensão) que produz essa melhora. Juntas, elas são o coração do método McKenzie.
Um exemplo comum no consultório
Imagine uma pessoa que chega com dor na lombar que desce pela parte de trás da coxa até a panturrilha. Ela passou o dia sentada e piorou. Eu peço que deite de bruços e faça extensões repetidas, empurrando o tronco com os braços e deixando o quadril na maca.
Nas primeiras repetições, a dor pode até ficar um pouco mais forte na lombar. Mas, ao longo da série, ela relata que a panturrilha parou de doer. Depois, a coxa. A dor "volta" para a lombar e fica concentrada ali.
Para o paciente isso parece estranho. A dor nas costas está mais nítida, então ele acha que piorou. Eu explico que é o contrário: dor que sai da perna e se concentra na coluna é um bom sinal. Indica que o problema responde a movimento e que achamos uma direção que ajuda.
E se a dor for para a perna?
O movimento oposto é a periferização: a dor desce mais pela perna durante o teste. Quando isso acontece, aquela direção é suspensa e eu procuro outra. Se nenhuma direção centraliza a dor, esse dado também orienta o plano, e pode indicar a necessidade de outros recursos ou de uma avaliação médica.
O que a pesquisa mostra
Um estudo de Long e colaboradores, publicado na revista Spine em 2004, avaliou pacientes com dor lombar que apresentavam preferência direcional. Quem fez exercícios na direção que melhorava os sintomas teve resultados melhores do que quem fez exercícios na direção oposta ou um programa genérico. A conclusão prática é a que eu vejo todo dia: a direção do exercício importa.
Quais são as classificações do método McKenzie?
Depois da avaliação, o método McKenzie classifica o quadro mecânico em três síndromes principais: desarranjo, disfunção e postural. Cada uma tem um comportamento diferente e pede uma estratégia diferente. Quando o quadro não se encaixa em nenhuma, ele entra numa categoria chamada "outros", que inclui causas não mecânicas.
| Classificação | Como a dor se comporta | O que costuma orientar o tratamento |
|---|---|---|
| Desarranjo | Muda de lugar e intensidade com os movimentos; pode centralizar ou periferizar. É a mais comum. | Exercícios repetidos na direção preferencial, até a dor centralizar e diminuir. |
| Disfunção | Aparece sempre no fim de um movimento específico, quando o tecido é alongado, e some ao sair da posição. | Alongamento progressivo e regular na direção limitada, com paciência. |
| Postural | Surge depois de muito tempo parado na mesma posição, sem lesão evidente, e passa ao mudar de posição. | Correção de postura e pausas ao longo do dia. |
Quem tem hérnia de disco com dor irradiada muitas vezes se encaixa no desarranjo. Mas não é regra: o laudo de hérnia não define a classificação. Já vi exame com hérnia grande e coluna que responde muito bem a movimento, e exame "leve" com paciente travado. Por isso a avaliação vem antes do rótulo.
Se você quer entender melhor o que o laudo significa, escrevi sobre quando a hérnia de disco L5-S1 é grave.
Qual é o papel do paciente no método McKenzie?
No método McKenzie, o paciente é o principal agente do próprio tratamento. O objetivo é que ele aprenda quais movimentos aliviam a dor, faça os exercícios em casa várias vezes ao dia e saiba o que fazer se a dor voltar.
Esse é um ponto que eu gosto muito no método. Ele tira a pessoa da dependência da maca. Em vez de esperar a próxima sessão para melhorar, ela sai do consultório com uma tarefa clara: por exemplo, uma série de extensões a cada duas ou três horas, e evitar ficar sentada por longos períodos naquela semana.
Na prática, eu peço que o paciente observe a própria dor:
- se ela está centralizando, sinal de que o exercício está no caminho certo;
- se está descendo mais pela perna, ele para e me avisa;
- quais posições do dia a dia pioram ou aliviam.
Com o tempo, ele aprende a reconhecer o começo de uma crise e a agir cedo. Isso não garante que a dor nunca mais volte, ninguém pode prometer isso. Mas dá autonomia, e autonomia reduz muito o medo.
Depois da fase de dor, costumo combinar o McKenzie com fortalecimento, muitas vezes no Pilates clínico do Instituto Perseverar, e, quando faz sentido, com técnicas de quiropraxia.
Para quem o método McKenzie é indicado e quais são os limites?
O método McKenzie costuma ser indicado para dor lombar e cervical de origem mecânica, inclusive com dor irradiada para perna ou braço, como acontece em muitas hérnias de disco. Ele não é para todo mundo: quem não apresenta resposta aos movimentos, ou tem sinais de alerta, precisa de outro caminho.
Quando costuma funcionar bem
- Dor que muda com a posição e com o movimento.
- Dor na perna que oscila ao longo do dia, ora mais, ora menos.
- Pessoas dispostas a fazer os exercícios em casa com regularidade.
Os limites do método
As revisões de estudos sobre o MDT para dor lombar mostram resultados favoráveis, mas modestos quando comparados a outras formas de exercício ativo. Uma metanálise de Lam e colaboradores (JOSPT, 2018) encontrou benefício do McKenzie em relação a outras intervenções em alguns cenários, sem diferença relevante em outros. Eu leio isso com honestidade: o método é uma ferramenta muito boa para escolher o exercício, não uma solução mágica.
A diretriz NICE NG59, do Reino Unido, recomenda exercício como parte do tratamento da dor lombar, e não indica uma técnica específica como superior. É assim que eu trabalho: o McKenzie entra quando a avaliação mostra que ele faz sentido.
Sinais de alerta: procure atendimento médico com urgência
- Perda de controle da urina ou das fezes.
- Dormência na região da sela (entre as pernas, ânus e genitais).
- Perda de força progressiva, como pé caído ou dificuldade de andar na ponta dos pés ou no calcanhar.
- Dor nas costas acompanhada de febre.
- Perda de peso sem explicação ou histórico de câncer.
Nesses casos, não é hora de exercício. É hora de pronto-atendimento.
Qual a diferença entre o método McKenzie e os exercícios de Williams?
Os exercícios de Williams são uma sequência fixa baseada em flexão da coluna (dobrar o tronco para frente, levar os joelhos ao peito). O método McKenzie não tem uma direção pré-definida: a avaliação decide se o paciente vai fazer extensão, flexão ou movimento lateral.
Os exercícios de Williams foram propostos pelo médico Paul Williams nos anos 1930 e ainda aparecem muito em folhetos e vídeos. A lógica era abrir o espaço na parte de trás da coluna. Para alguns quadros, a flexão alivia, e o próprio McKenzie pode chegar a ela se a avaliação apontar essa preferência.
O problema é aplicar flexão para todo mundo. Muitas pessoas com dor irradiada por hérnia pioram ao dobrar o tronco, ficar sentadas ou amarrar o sapato. Para esse grupo, uma série de flexões feita sem avaliação pode empurrar a dor para a perna.
- Williams: protocolo fixo, sempre flexão.
- McKenzie: avaliação primeiro, direção escolhida pela resposta da dor.
Então, McKenzie ou Williams? Minha resposta é: comece pela avaliação. Se você está na dúvida sobre o que fazer com a sua hérnia, leia também se a hérnia de disco tem cura sem cirurgia e como o Pilates para hérnia de disco entra depois da fase aguda.
Avaliação de coluna com o Dr. Pedro
Se a sua dor desce para a perna ou trava a lombar, agende uma avaliação no Instituto Perseverar, em Contagem, pelo WhatsApp. Vamos entender juntos como a sua coluna responde ao movimento.
Agendar consulta pelo WhatsAppConheça também: Tratamento de coluna e hérnia de disco
Perguntas frequentes
Posso fazer os exercícios do método McKenzie sozinho em casa?
Os exercícios são feitos em casa, mas a direção deve ser definida numa avaliação. Fazer extensão ou flexão por conta própria pode piorar a dor se for a direção errada para o seu caso. Depois de avaliado, você recebe orientações claras do que fazer e do que observar.
É normal a dor nas costas aumentar durante o exercício McKenzie?
Pode acontecer de a dor ficar mais forte na lombar enquanto a dor da perna diminui. Isso costuma indicar centralização, que é um bom sinal. O que não é esperado é a dor descer mais pela perna: nesse caso, pare e avise o fisioterapeuta.
O método McKenzie serve para dor no pescoço?
Sim. O método McKenzie também é usado para dor cervical, inclusive com dor que desce para o braço. A lógica é a mesma: testar movimentos repetidos e encontrar a direção que alivia os sintomas.
Quantas sessões de McKenzie são necessárias?
Não existe um número fixo. Depende da classificação do quadro, da resposta aos movimentos e da regularidade dos exercícios em casa. A decisão é individual e é revista a cada consulta.
Quem tem hérnia de disco pode fazer extensão da coluna?
Muitas pessoas com hérnia melhoram com extensão, mas não todas. Só a avaliação mostra se a extensão centraliza ou periferiza a sua dor. Por isso eu nunca indico a mesma direção para todo mundo com o mesmo laudo.
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Fontes e estudos citados
- Long A, Donelson R, Fung T. Does it matter which exercise? A randomized control trial of exercise for low back pain. Spine, 2004.
- Lam OT et al. Effectiveness of the McKenzie Method of Mechanical Diagnosis and Therapy for Treating Low Back Pain: Literature Review With Meta-analysis. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 2018.
- Machado LA et al. The McKenzie method for low back pain: a systematic review of the literature with a meta-analysis approach. Spine, 2006.
- National Institute for Health and Care Excellence. Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management (NG59). NICE, 2016.
Fisioterapeuta especializado em coluna vertebral, hérnia de disco e dores irradiadas (CREFITO-4 144.105F). Professor de quiropraxia, criador do método P.I.L.A.R. e fundador do Instituto Perseverar, em Contagem. Foi fisioterapeuta credenciado nas Olimpíadas Rio 2016, com menção honrosa do CREFITO-4, e já falou sobre coluna no SBT Saúde, na Band Minas e na TV Alterosa.

